Artigo

Precisamos nos Indignar


24/04/15

A deputada estadual Delegada Adriana Accorsi publicou artigo no jornal O Popular, de hoje (24) que trata dos casos de exploração sexual de crianças e adolescentes na região dos calungas.

Precisamos nos indignar

O Brasil é conhecido por sua diversidade cultural, mas também por ser um país onde as diferenças sociais são gritantes. Diferenças que geram injustiças, geram submissão, geram impunidade. Em pleno século 21, signatário de várias cartas e acordos internacionais que primam pelo respeito aos direitos humanos, com uma Constituição no Brasil conhecida como Constituição Cidadã, datada de 1988, é inadmissível, inaceitável termos que conviver com tamanho descaso e desrespeito aos direitos humanos dos povos calungas.

Remanescentes de escravos, os povos calungas encontram-se situados na região de Cavalcante, Monte Alegre e Teresina de Goiás, distribuídas nas localidades de Engenho II, Prata, Vão do Moleque e Vão das Almas. Durante mais de dois séculos praticaram a agricultura e garantiram formas de sobrevivência isolados da dita civilização. Foi somente na década 80 que se deu a reaproximação.

Infelizmente, a tal reaproximação não significou respeito às comunidades calungas e a todo o acervo cultural e humano que eles representam. Pelo contrário, hoje a comunidade calunga vive um momento de muita tristeza e dificuldade, ao ver o seu bem mais precioso, o seu povo, à mercê da vontade e dos desmandos políticos, à mercê da falta de estrutura do poder público, à mercê da própria sorte.

Foi isto o que pude constatar no início da semana, ao participar de uma audiência pública na cidade de Cavalcante, quando as denúncias de crimes de exploração sexual contra crianças e adolescentes calungas, foram explicitadas por lideranças locais, conselheiros tutelares e a população que lotava o auditório da câmara de vereadores daquele município, após denúncia feita em reportagem veiculada no jornal O POPULAR.

Com uma longa experiência à frente da Delegacia de Proteção à Criança e ao Adolescente de Goiânia, pude constatar o sofrimento daquelas pessoas que estavam ali, clamando para nós, autoridades estaduais e federais por socorro! A falta da efetividade de políticas públicas simples, como o cumprimento do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), levam pessoas conceituadas da sociedade local, a culpabilizar as vítimas, desqualificando o ato criminoso daqueles que se escondem atrás dos cargos que ocupam, do poder que detêm.

Naquela região, ainda é comum famílias calungas, normalmente com poucos recursos, confiarem às famílias abastardas suas filhas negras, com o compromisso de elas receberem educação e comida, um costume antigo e superado, ainda presente naquela comunidade. Esse é o passaporte para o trabalho escravo e a exploração sexual. Às famílias que recebem as crianças e jovens, toda a credibilidade. Às crianças e jovens, o descaso e a desqualificação nas denúncias feitas.

Sabendo que a incidência de adolescentes que engravidam antes dos 15 anos é grande na região, corre a boca pequena que as pessoas de “boa índole” acusam as meninas de engravidarem propositalmente para garantirem ajuda governamental! Pasmem! Pessoas que deveriam estar defendendo os direitos destas meninas e adolescentes e exigindo justiça são as primeiras a culpabilizá-las!

Preciso concordar com meus colegas delegados e com promotores que faltam estruturas. De fato, a delegacia da cidade está em péssimas condições. Não existem policiais mulheres para ouvir as vítimas do sexo feminino, não há estrutura para os conselhos tutelares, não há juiz para a cidade. Tudo isto é fato! Porém, caros colegas, não podemos nos acomodar na realidade da falta de estrutura e assim fazer vistas grossas para um problema tão perverso, que pode dizimar com o futuro de dezenas de crianças e adolescentes, que se veem sem o direito de viver com dignidade.

Vamos todos nós autoridades judiciárias, parlamentares e do Executivo fazer uma grande frente de trabalho em favor da paz social. E para alcançarmos esta paz, temos de promover a justiça. Não podemos nos omitir frente a situações tão indignas, tão desumanas, perversas, que atinge a parte mais vulnerável da sociedade: nossas crianças, o futuro de nosso País. Precisamos nos indignar, precisamos agir! A hora é agora!

Adriana Accorsi é delegada de Polícia e deputada estadual (PT)

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