Artigo

É preciso refletir sobre as políticas públicas em favor dos mais vulneráveis!


27/03/15

Maria era uma jovem que  na adolescência apresentou sintomas de esquizofrenia, vivia em casa,  com sua mãe. Em momentos de crises, tinha o hábito de percorrer o bairro onde morava, sem rumo, sem destino.  Muitas pessoas que apresentam sintomas dessa doença, intercalam momentos de lucidez com  devaneios. Outras  vivem definitivamente numa  situação de permanente alienação. Maria tinha momentos de lucidez e de delírio.

Sem saber como, onde,  quando e quem foi,  a família deparou-se com Maria grávida.  Menor de idade,  com  problemas mentais, abusada sexualmente e grávida!  Maria deu a luz a uma menina. O abuso sexual  que vitimou  Maria foi vítima foi definitivo para a sua frágil vida. Maria surtou de vez.  A cada dia era uma pessoa diferente. Ria, chorava, gritava. A sua ansiedade ela partilhava com o cigarro. Era um atrás do outro. Um dia era criança, noutra exagerava no batom e no rouge e caminhava rua acima, rua abaixo, rindo do seu destino.

Ana filha de Maria crescia. A avó zelosa que era,  procurava dar-lhe um lar, sem contudo, ela própria saber lidar com a sorte que a vida lhe reservara. Três gerações de mulheres vítimas de uma estrutura social cheia de falhas. Sozinha,  preocupava-se em cuidar da filha doente mental e da neta, a criança fruto do  estupro. Ana crescia e na mesma proporção a  sua revolta com o que a vida lhe oferecia. Uma mãe esquizofrênica, uma avó que lutava dia e noite na máquina de costurar para dar conta de do seu fardo.  Dar o de comer e o de beber, vestir, educação dos bancos de escola.

Na escola Ana  sempre demonstrou desatenção, desinteresse  pelos estudos. Com muita dificuldade estudou até a 5ª série do Ensino Fundamental, hoje 6º ano. Abandonou  os estudos, envolveu-se com o mundo das drogas. Engravidou-se uma, duas, três vezes.  Só a primeira vingou: um menino. Ana não mudou de vida. A avó já desiludida com tudo,  se apegou ao que para ela passou a ser sua única esperança, converteu-se. Hoje é evangélica.  Maria faleceu há pouco tempo e Ana hoje já maior de idade, continua na vida, se drogando...

Essa história não é ficção. Essa história é real. Infelizmente na minha experiência como delegada de polícia, presenciei inúmeras delas. Famílias que não tiveram o direito de contar com a proteção do Estado. As políticas públicas nunca chegavam até elas. A delegacia de polícia para muitos era o único serviço estatal acessível!

O mês de maio dedicado à discussão, ao debate e a conscientização da população sobre o abuso sexual de crianças e adolescentes, é também o mês dedicado a luta antimanicomial. Dois temas intrinsecamente ligado às mulheres e consequentemente  a falta de políticas públicas.

Estudos apontam:  crianças violentadas, que não têm o devido amparo  familiar e estatal, podem se tornar futuros psicopatas,  pessoas  desestruturadas emocionalmente que irão repetir a história herdada (círculo vicioso). Idem  história da personagem Ana  aqui relatada.  

Em um país que cuida de suas crianças, das pessoas em situação de vulnerabilidade é natural que os mecanismos de assistência social, saúde, educação funcionem adequadamente, evitando consequências trágicas como os casos de pedofilia, estupro de vulneráveis, gravidez de adolescentes, aborto clandestino e morte materna. Não podemos dizer que nosso país encontra-se em situação confortável quando falamos desses casos. Porém, nos últimos anos, através da luta dos movimentos sociais como a Rede de Atenção a Criança e ao Adolescente, dos movimentos de mulheres, somos testemunhas que conquistamos muito, porém não o suficiente para que histórias como a narrada  não aconteçam.

Acredito que não cabe aos nossos representantes políticos colocar em questão os números e estatísticas da violência sexual e dos abortos clandestinos, até porque existem vários mecanismos para que as subnotificações sejam interpretadas e traduzidas em números. Portanto, não se trata de casos pontuais, da mesma forma, reduzir o trauma de uma vítima de estupro,  a adoção é desconhecer por completo o quadro caótico das crianças que vivem em  condição de abrigamento, o que certamente para a mulher violentada só aumentaria mais a sua dor  e os seus traumas.  A Saúde Pública  tem dados de fácil comprovação do que estamos aqui afirmando.  É importante pensar o respeito à VIDA a começar por não negligenciar as VIDAS  que sofrem com as consequências dos problemas sociais cotidianamente escancarados na nossa cara.

Adriana Accorsi, quando era Secretária Municipal de Defesa Social

 

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